CARTA ABERTA AOS AUTO DECLARADOS INDÍGENAS, AOS ÓRGÃOS DE APOIO E PROTEÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DE BASE E A COMUNIDADE EM GERAL

Nós, lideranças e caciques Tentehar-Guajajara, juntamente com os movimentos jovens indígenas, das terras ocupadas por nós no centro-oeste e sul do Maranhão queremos, por meio desta carta aberta, tornar pública a nossa indignação acerca dos auto declarados indígenas, em especial os auto declarados do povo Guajajara que têm se apropriado da nossa cultura em prol de autopromoção.

Historicamente somente alguns povos indígenas no Brasil mantiveram seus territórios, línguas e comunidades “preservados”, e o povo Tentehar-Guajajara é um deles.

Tendo em vista que, de um modo geral, podemos partir do pressuposto de que todo o povo brasileiro tem, de certa forma, uma ascendência indígena, respeitamos o posicionamento e a busca pela ancestralidade dos auto declarados, porém, essa prerrogativa não pode funcionar como uma permissão para que se apropriem da nossa cultura de forma abusiva, desrespeitosa e depreciativa.

Entendemos que o processo de colonização conduziu a uma grande miscigenação dos povos originários. Essa miscigenação foi, e ainda é, uma das formas de apagar origens e identidades no nosso país. Essa opressão levou a uma mestiçagem que iniciou um processo histórico de tentativa de branqueamento dos povos no Brasil.

Essa miscigenação, aliada ao processo natural de urbanização, levou parte da população indígena a viver fora de suas reservas, migrando para os centros urbanos, levando-os a se afastarem e, com o passar do tempo, se perderem quase que por completo da sua cultura ancestral. Reconhecemos, de certo modo, que a ancestralidade faça parte da história de pertencimento dessas pessoas e, consequentemente, dos seus descendentes.

Atualmente, como o crescimento do nosso movimento de demarcação de terras e luta contra o genocídio dos povos indígenas finalmente têm ganhado visibilidade nas mídias e agregação de companheiros para essa luta, isso chamou a atenção e trouxe a tona essa “vontade” de retomada de ancestralidade por parte desses descendentes indígenas, manifestando um discurso com a intenção de reparação histórica baseado no nosso etnocídio.

Alguns desses descendentes realmente apresentam uma preocupação no que tange a busca de suas origens, direitos, territórios, línguas e toda a cultura ancestral de um modo geral.

Essa retomada é importante para somar força e representatividade nas nossas lutas, desmitificando a condição de povo fadado a extinção a qual fomos inseridos. Porém, algumas dessas pessoas vêm se auto declarando Guajajaras sem um mínimo de conhecimento real acerca da nossa cultura e realidade.

Grande parte dessas pessoas auto declaradas não possuem vínculo direto com o nosso povo, logo, não podem usar o nosso nome e lugar para nos representar. Desaprovamos toda e qualquer atitude que afeta moralmente e deslegitime nossas lideranças. A essas pessoas manifestamos o nosso repúdio com relação `as atitudes de autopromoção e obtenção de vantagens se utilizando da nossa ancestralidade. Algumas delas usando de “vitimismo” e desvalorização da nossa cultura para a obtenção dessas vantagens. Esse tipo de atitude não condiz com a honra e caráter do nosso povo, gerando desrespeito e descrédito para a nossa cultura e costumes.

Para algumas dessas pessoas o que antes poderia parecer uma vergonha, hoje se tornou motivo de orgulho, mas orgulho esse que não pode ser utilizado de acordo com a própria conveniência. Ser indígena implica muito mais que pintar a pele, emitir algumas das nossas palavras ou cantos, ou simular os nossos rituais. É preciso saber o que de fato significa tudo isso, o que de fato significa a nossa força, ancestralidade, luta e resistência. Ser indígena implica conviver diariamente com o racismo, desrespeito, constantes opressões e descaso da sociedade e do Estado. A nossa questão é: essas pessoas auto declaradas estão preparadas para dar a cara e correr ao nosso lado na nossa luta diária? Porque muito do que tem sido mostrado soa-nos mais como falta de bom caráter.

Cordialmente,

Povo Tentehar-Guajajara

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