Uma carta de amor para Brenda Boe

Por: Neimar Kiga 
Uma carta de Amor para Brenda Boe

Nada será como antes, nada! 
Você pode até não estar fisicamente entre nós, mas estará sempre na nossa memória, no nosso coração e nas nossas lembranças, que inclusive eram de muitas felicidades. E estará conosco sempre, eu sei, porque vc nunca nos abandonou. Você sempre irá conosco e nós te levaremos para onde formos.

Saiba que você sempre foi e será uma referência para nós Boe LGBTs que ainda estamos aqui lutando por uma vida mais digna. Sempre admirei a coragem e força que tinha em você para falar o que deveria ser dito e ouvido. Nunca pude ser tão corajoso como você sempre foi, mas por você, por nós e por quem você amava eu tentarei levar toda essa coragem adiante, para enfrentar o que for necessário. E sermos ainda mais fortes.

Por mais que as vezes tentavam te oprimir, te criticar, te magoar e ofender, você sempre saía de cabeça erguida, pois sabia o que você era, do seu potencial e de sua capacidade. E para sair de cabeça erguida, antes usava toda a sua coragem, coragem demais, coragem pra tudo. E seguia pisando em cima de tudo que te feria e que nos fere também, mas sempre passava desses obstáculos que muitas vezes eram somente sobre seu jeito meigo de ser. Deixava a lgbtfobia para trás, mesmo que ainda por dentro doa todo aquele sentimento negativo de preconceito, de julgamento, de implicância, intolerância. E saía plena, batendo o cabelo.

E tão difícil aceitar que não te teremos para ir ao rio e ficar horas conversando, brincando, rindo, gritando, dançando. Que não te verei mais nos bailes, nos jogos, na noite ou passando pela aldeia. Já se passaram 7 dias e tá sendo tão difícil saber que você se foi, que não vou te ver, te tocar. Mas nós te amaremos da mesma forma, eu falo NÓS porque sei o quanto era querida por todos. Pelo vazio que deixou na aldeia.

Precisamos de políticas públicas voltadas a comunidade indígena lgbt, não é querer privilégio. É querer viver. Carregar marcadores por sermos indígenas e viados (como alguns dizem) traz várias consequências negativas que podem ser evitadas. São vários pilares que formam uma estrutura. Então é necessária a inserção dessa pauta na saúde, na educação e na cultura, pois também somos parte da comunidade.

Maior encontro dos povos indígenas do Brasil será on-line

Para enfrentar as ameaças da pandemia da Covd-19, a 16ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL), acontece virtualmente entre os dias 27 e 30 de abril.
O Acampamento Terra Livre é o evento em que povos indígenas de todo o País se reúnem para fortalecer a luta e a resistência do movimento indígena.

Esse ano, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) convoca uma mobilização virtual para realizar a 16ª edição do ATL. Diante da nova ameaça causada pela pandemia da Covid-19, do crescimento das invasões nos territórios indígenas, do aumento de assassinatos e criminalização de lideranças, o formato virtual do encontro pretende alertar sobre a real possibilidade de um novo genocídio e denuncia o descaso do Governo Bolsonaro em garantir a proteção de nossos povos ancestrais.

A programação do evento terá início na segunda-feira, dia 27, a partir das 9h, e transmitirá encontros, reuniões, lives, pajelança, cantos, danças tradicionais, mostra de filmes indígenas, debates entre mulheres de diferentes etnias, além de mesas com grandes lideranças, indigenistas, antropólogos e outras interações que conectam povos de todo o Brasil no ambiente online.

Nos painéis de discussões, os temas variam entre “Saúde indígena e o racismo institucional”, “Os povos indígenas em tempos de Coronavírus”, “Agenda LGBTQ + Indígenas”, “Enfrentamento às mudanças climáticas, aumento do desmatamento e o impacto no pós-pandemia”, “Direitos Indígenas, violações e autoritarismos”, “Os processos migratórios dos povos indígenas no Acre e a Covid-19”, “Histórias sobre as primeiras retomadas no sul do Brasil”, “Mesa internacional”, entre muitos outros.

Em tempos em que o isolamento social incentiva as criminosas invasões de madeireiros, garimpeiros, missionários e grileiros nas Terras Indígenas, quando a violência e os ataques aos territórios só aumentam e o governo federal acintosamente desarticula instituições importantes na defesa dos povos, como IBAMA e FUNAI; a APIB e a MNI (Mobilização Nacional Indígena) convocam a sociedade brasileira para participar do ATL 2020, que representa a luta e a resistência dos indígenas do Brasil.

“O alerta está dado, a luta indígena é urgente e a sociedade precisa apoiar essa causa, que é de todos nós”, convida Sônia Guajajara, coordenadora da APIB.

O evento é organizado pela APIB e suas organizações de base junto à MNI – e as organizações que a compõem.

Serviço:

Data: de 27 a 30 de abril de 2020
Onde: nas redes sociais da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil)
A programação será hospedada no site http://apib.info/
Contatos pra imprensa: Yaponã Bone (99) 98126 4090 e Caio Mota: (65) 99686 6289
Youtube: https://bit.ly/2VQtwvd
Instagram: @apiboficial
Facebook: @apiboficial
Hashtags: #ATL2020 #SangueIndigenaNenhumaGotaMais #AbrilVermelho #ATLOnline #ATLEmRedes #ResistenciaIndigenaOnline

1500 não acabou!

Por: Emerson Pataxó
A pandemia que assusta o mundo inteiro chegou nas aldeias indígenas e vem levando a infecção a diversos povos originários pelo Brasil à fora, segundo o Comitê Nacional Pela Vida e Memória Indígena, até ontem (18) já são mais de 600 indígenas que testaram positivo para a COVID-19 e mais de 100 óbitos. O coronavírus é uma ameaça real a existência dos povos indígenas, assim como a gripe, varíola, sarampo e a malária que no passado foram introduzidas em terras indígenas e tiveram como consequência, a morte de milhares de parentes, infectados por essas doenças que são nada mais, nada menos do que um projeto de continuidade do genocídio que se iniciou em 1500. No dia (14) de abril, o ex –diretor do IBAMA, Olivaldi Borges Azevedo foi exonerado por comandar uma megaoperação que tinha como um dos objetivos a tentativa de frear a chegada do coronavírus em três Terras Indígenas no Pará que foram a Apyterewa, Araweté e Trincheira – Bacajá. O Ministério do Meio Ambiente demitiu o então diretor, simplesmente por ir contra a posição do governo que sempre foi favorável aos garimpeiros e madeireiros em terras indígenas, tal ato configura nitidamente a falta de compromisso do governo em proteger as terras e as vidas indígenas. O governo federal é o responsável por atender a demanda de saúde dos povos indígenas, através da Secretaria Especial de Saúde Indígena – SESAI, por sua vez, representada pelos Dsei’s (Distritos Sanitários Especiais de Saúde Indígena) que são mais próximos das comunidades indígenas, porém, muitos dsei’s não tem sequer carro para fazer a locomoção dos profissionais de saúde para fazerem o atendimentos dos parentes indígenas testados positivo ou em caso de suspeita. O risco de morte tem se tornado cada vez mais presente nas aldeias, levando em consideração que os povos indígenas tem um sistema imunológico extremamente fraco para suportar um vírus na natureza da COVID19. Até o presente momento já são mais de 40 povos originários infectados pela COVID segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, veja abaixo quais povos são esse:

Anacé - CE

Arapiun - PA

Apurinã - AM

Atikum – PE

Assurini- PA

Baniwa - AM

Baré - AM

Borari - PA

Dessana - AM

Fulni-ô – PE 

Galiby Kalinã - AP

Guarani Mbya - SP

Guarani Kaiowa - MS

Guajajara - MA

Hixkaryana - AM

Huni Kuin - AC

Jenipapo Kanidé - CE

Karitiana - RO

Kariri Xokó - AL 

Kaigang - SC/RS

Karipuna - AP

Kokama - AM

Makuxi – RR

Mura - AM

Munduruku - AM/PA

Pandareo Zoro - RO

Pankararu – PE

Pankará - PE

Palikur - AP

Pipipã - PE

Pitaguary - CE

Potiguara - RN

Sateré Maué - AM

Tabajara - CE

Tariano - AM

Tapeba - CE

Tembé - PA

Tikuna – AM

Tukano - AM

Tupinambá - CE/PA

Tupinikim - ES

Warao (Amazônia Venezuelana - AM/PA/RR/RN/PE)

Xavante - MT

Yanomami - RR

Nosso amanhã não está à venda

Por Erisvan Guajajara e Renata Tupinambá

São 520 anos de luta e resistência indígena em defesa de direitos e, atualmente, enfrentamos mais uma guerra. Nossos povos estão em situação de vulnerabilidade com o risco de a Covid-19 causar outro genocídio e dizimar nossa população. A epidemia causada pelo novo coronavírus está ganhando ainda mais proporção e se multiplicando nos territórios indígenas.

Ao todo, já são oito óbitos confirmados entre os povos indígenas. A Secretaria Especial da Saúde Indígena (Sesai), entretanto, só contabilizou cinco. É necessário e urgente que os órgãos responsáveis possam garantir um atendimento igualitário para todos —somos indígenas em qualquer local que ocupamos.
Alguns de nós são indígenas aldeados —os que vivem em contexto urbano—, a maioria por ir em busca de estudos. Outros são os indígenas que vivem em isolamento voluntário, aqueles que não têm contato nenhum com outros povos e são os que correm um grande risco de ser infectado pelo novo coronavírus. O risco de contágio nessas comunidades isoladas é decorrente do aumento de madeireiros, grileiros, caçadores e garimpeiros que se multiplicaram nas terras indígenas e trazem o perigo do vírus até nossos familiares.

O Amazonas é o estado brasileiro com maior número de casos de indígenas que testaram positivo para Covid-19 e que morreram devido à doença, até o momento. São 29 casos confirmados na região Norte. Em todo o Brasil, segundo o governo federal, já são 31 indígenas que testaram positivo para o novo coronavírus e 26 indígenas com suspeitas.

Para combater o vírus, lideranças indígenas estão realizando campanhas de arrecadação online para ajudar a levar remédios e alimentos às aldeias. Este é o momento de ter um olhar direcionado aos povos indígenas —o efeito para nós pode ser devastador. Precisamos ser fortes, e com a força das nossas ancestralidade vamos vencer mais essa guerra.

Uma das principais fontes de recurso econômico para os indígenas é a venda de artesanato. Muitas famílias sobrevivem assim, além dos que trabalham também nas cidades em diferentes profissões ou são universitários. Alguns estão impedidos de retornar para suas aldeias em certas localidades e outros fecharam estradas que atravessam seus territórios por medo de contaminação da população. Medidas estão sendo tomadas pelos próprios povos para proteger suas comunidades, já que não existe uma garantia de ajuda, e o apoio do governo é apenas um paliativo para a situação. Em um momento grave como este, existem ainda a desconfiança e denúncias do desvio de verbas.


Os mais velhos alertam que certas coisas não são negociáveis, como o nosso direito ao bem-viver em nossos territórios ancestrais, do nosso modo, dentro da nossa autonomia. Estamos interligados nesse bioma pleno de oxigênio, mas nos deparamos com uma sociedade dita civilizada que divide predatoriamente pessoas por classes sociais. Nessa divisão, alguns recebem assistência e outros são esquecidos à própria sorte, apesar de sabermos que todos poderiam ser tratados com dignidade. Os povos que são apontados como "atrasados" —povos originários e comunidades tradicionais— são invisíveis para os que movimentam a grande máquina econômica, que apenas existe por explorar o suor e recursos naturais dos que são feitos de invisíveis.

Uma grande perda recente, vítima do descaso, foi a do indígena Aldevan Baniwa, no dia 18 de abril. Ele era escritor e agente da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM) e foi vítima da Covid-19. Aldevan tinha denunciado no dia 14 de abril a falta de testes e proteção para profissionais que estão na linha de frente da sua região. Uma prova de que indígenas vão precisar se proteger por si mesmos.

Pela primeira vez na história do Brasil, vemos o maior número de indígenas isolados em aldeias e casas. A maioria dos chefes de governo parece utilizar discursos para confundir suas populações, não vemos fibra moral para guiar o povo brasileiro neste momento pandêmico. Sistemas de saúde precários, canibalizados, sucateados, possuem heróis como paramédicos, enfermeiros, cientistas e médicos, que colocam diariamente a própria vida em risco. É preciso apoiar de todas as formas esses profissionais na linha de frente do tratamento. Brasileiros precisam entender que nosso amanhã não está à venda, como alertou o pensador indígena Ailton Krenak.

O saber milenar dos mais velhos e o conhecimento profundo de medicinas da floresta mantêm nossos povos em pé. Apesar de ser um vírus novo, temos enfrentado todo esse tempo epidemias e variados tipos de ameaças. Nossa única proteção é continuar cuidando uns dos outros e as bases de apoio colaborativas. Fazemos mutirões pela defesa da vida, usamos nossas próprias mãos para proteger os nossos, cada um dentro de sua função e ensinamos que apenas na coletividade mostrada pelas comunidades é possível viver.

Erisvan Guajajara é da aldeia Lagoa Quieta, Terra Indígena Araribóia, no Maranhão. Um dos fundadores da "Mídia Índia", atua no fortalecimento da comunicação como ferramenta de luta na visibilidade dos povos indígenas. Informações em @itaynwa.

Renata Tupinambá é cofundadora da Rádio Yandê (@radioyande) e apresentadora do podcast Originárias (@aratykyra).
Link: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/perifaconnection/2020/04/nosso-amanha-nao-esta-a-venda.shtml

©2020 por Mídia Índia. Orgulhosamente criado com Wix.com